Dica de Redação

Saiba tudo sobre Carta Argumentativa

Ena Lélis
Escrito por Ena Lélis em 3 de julho de 2018
Aprenda a escrever uma Redação Nota Dez

Receba nosso conteúdo em seu e-mail:

A carta argumentativa é um tipo de texto dissertativo. E, ao contrário do que pensam muitos vestibulandos e concurseiros, não há segredo algum em sua elaboração. Aliás, ela é, segundo alguns, bem mais simples que a dissertação tradicional, haja vista que é um tipo de texto bem próximo à realidade dos alunos/candidatos, dos quais a maioria certamente já escreveu uma carta a alguém.

Vejamos, então, as principais características da carta:

Argumentação e Estrutura dissertativa:

Costuma-se enquadrar a carta na tipologia dissertativa, uma vez que, como a dissertação tradicional, apresenta a tríade introdução / desenvolvimento / conclusão. Logo, no primeiro parágrafo, você apresentará ao leitor o ponto de vista a ser defendido; nos dois ou três subsequentes (considerando-se uma carta de 20 a 30 linhas), encadear-se-ão os argumentos que o sustentarão; e, no último, reforçar-se-á a tese (ponto de vista) e/ou apresentar-se-á uma ou mais propostas.

Como a carta não deixa de ser uma espécie de dissertação argumentativa, você deverá selecionar com bastante cuidado e capricho os argumentos que sustentarão a sua tese. É importante convencer o leitor do seu ponto de vista.

Apesar das semelhanças com a dissertação, que você já conhece, é claro que há diferenças importantes entre esses dois tipos de redação. Vamos ver as mais importantes:

1) Cabeçalho:

Na primeira linha da carta, na margem do parágrafo (recuo de, mais ou menos, 2cm), aparecem o nome da cidade e a data na qual se escreve. Exemplo: Salvador, 4 de junho de 2018.

2) Vocativo:

Na linha de baixo, também na margem do parágrafo, há o termo por meio do qual você se dirige ao leitor (geralmente marcado por vírgula). A escolha desse vocativo dependerá muito do leitor e da relação social com ele estabelecida. Exemplos: Prezado senhor Fulano, Excelentíssima senhor presidente Beltrano, Caro deputado Sicrano etc.

3) Interlocutor definido:

Essa é, indubitavelmente, a principal diferença entre a dissertação tradicional e a carta. Quando alguém pede a você que produza um texto dissertativo, geralmente não lhe indica aquele que o lerá. Você simplesmente tem que escrever um texto para alguém indefinido. Na carta, isso muda: estabelece- se uma comunicação particular entre um eu definido e um você definido. Logo, você terá que ser bastante habilidoso(a) para adaptar a linguagem e a argumentação à realidade desse leitor e ao grau de intimidade estabelecido entre vocês dois. Imagine, por exemplo, uma carta dirigida a um presidente de uma associação de moradores de um bairro carente de determinada cidade. Esse senhor, do qual você não é íntimo, não tem o Ensino Médio completo. Então, a sua linguagem, escritor(a), deverá ser mais simples do que a utilizada numa carta para um juiz, por exemplo (as palavras podem ser mais simples, mas a Gramática sempre deve ser respeitada). Os argumentos e informações deverão ser compreensíveis ao leitor, próximos da realidade dele. Mas, da mesma maneira que a competência do interlocutor não pode ser superestimada, não pode, é claro, ser menosprezada. Você deve ter bom senso e equilíbrio para selecionar os argumentos e/ou informações que não sejam óbvios ou incompreensíveis àquele que lerá a carta.

4) Necessidade de dirigir-se ao leitor:

Na dissertação tradicional, recomenda-se que você evite dirigir-se diretamente ao leitor por meio de verbos no imperativo (“pense”, “veja”, “imagine” etc.). Ao escrever uma carta, essa prescrição cai por terra. Você até passa a ter a necessidade de fazer o leitor “aparecer” nas linhas. Se a carta é para ele, é claro que ele deve ser evocado no decorrer do texto. Então, verbos no imperativo – que fazem o leitor perceber que é ele o interlocutor – e vocativos são bem-vindos. Observação: é falha comum entre os alunos-escritores “disfarçar” uma dissertação tradicional de carta argumentativa. Alguns escrevem o cabeçalho, o vocativo inicial, um texto que não evoca em momento algum o leitor e, ao final, a assinatura. Tome cuidado! Na carta, vale reforçar, o leitor “aparece”.

5) Expressão que introduz a assinatura (Cumprimentos Finais):

Terminada a carta, é de praxe produzir, na linha de baixo (margem do parágrafo), uma expressão que precede a assinatura do autor. A mais comum é “Atenciosamente”, mas, dependendo da sua criatividade e das suas intenções para com o interlocutor, será possível gerar várias outras expressões, como “De um amigo”, “De um cidadão que votou no senhor”, “De alguém que deseja ser atendido” etc.

6) Assinatura:

Um texto pessoal, como é a carta, deve ser “assinado” pelo autor. Nas provas de concursos e vestibulares, a banca costuma deixar expressa a maneira como o(a) candidato(a) deve assinar o texto. Em hipótese alguma escreva o seu nome ou utilize as iniciais dele. Aliás, as iniciais devem ser completamente evitadas, porque podem ser interpretadas como identificação. Logo, se a banca não indicar a assinatura, busque termos gerais que tenham coerência com o que foi escrito anteriormente. Ex.: Cidadão brasileiro; Aluno de escola pública; Seu eleitor etc.

 

Exemplo da Estrutura

Salvador, 9 de novembro de 2018

Vocativo,

Este é o primeiro parágrafo da sua carta. O ideal é que você exponha ao seu interlocutor o assunto sobre o qual deseja tratar. Lembre-se de utilizar, por toda a carta, a linguagem adequada ao seu destinatário.

Este é o segundo parágrafo da sua carta. Aqui você começa a argumentar sobre o seu ponto de vista. Como você já deve saber, a extensão (tamanho) dos parágrafos de uma carta argumentativa é mais livre que a do texto dissertativo-argumentativo. Mas utilize o bom senso. Você não vai escrever um parágrafo com 2 linhas e outro com 15, certo?

Este é o terceiro parágrafo da sua carta. Ele pode ou não existir. Mas pense que um texto bem estruturado, com cada ideia defendida em seu devido parágrafo, possivelmente pedirá mais do que dois parágrafos somente. Logo, utilize os seus conhecimentos e o seu bom senso. No último parágrafo da sua carta, direcione-se para uma despedida.

Cumprimentos,

Assinatura

 

A imagem abaixo é de uma carta de um ex-aluno do Redação Nota Dez. Observe onde começam o cabeçalho, o vocativo, os parágrafos, os cumprimentos e a assinatura.

 

Exemplo de Carta Argumentativa

Londrina, 10 de setembro de 2002

Prezado editor,

O senhor e eu podemos afirmar com segurança que a violência em Londrina atingiu proporções caóticas. Para chegar a tal conclusão, não é necessário recorrer a estatísticas. Basta sairmos às ruas (a pé ou de carro) num dia de “sorte” para constatarmos pessoalmente a gravidade da situação. Mas não acredito que esse quadro seja irremediável. Se as nossas autoridades seguirem alguns exemplos nacionais e internacionais, tenho a certeza de que poderemos ter mais tranquilidade na terceira cidade mais importante do Sul do país.

Um bom modelo de ação a ser considerado é o adotado em Vigário Geral, no Rio de Janeiro, onde foi criado, no início de 1993, o Grupo cultural Afro Reggae. A iniciativa, cujos principais alvos são o tráfico de drogas e o subemprego, tem beneficiado cerca de 750 jovens. Além de Vigário Geral, são atendidas pelo grupo as comunidades de Cidade de Deus, Cantagalo e Parada de Lucas.

Mas combater somente o narcotráfico e o problema do desemprego não basta, como nos demonstra um paradigma do exterior. Foi muito divulgado pela mídia – inclusive pelo seu jornal, a Folha de Londrina – o projeto de Tolerância Zero, adotado pela prefeitura nova-iorquina há cerca de dez anos.

Por meio desse plano, foi descoberto que, além de reprimir os homicídios relacionados ao narcotráfico (intenção inicial), seria mister combater outros crimes, não tão graves, mas que também tinham relação direta com a incidência de assassinatos. A diminuição do número de casos de furtos de veículos, por exemplo, teve repercussão positiva na redução de homicídios.

Convenhamos, senhor editor: faltam vontade e ação políticas. Já não é tempo de as nossas autoridades se espelharem em bons modelos? As iniciativas mencionadas foram somente duas de várias outras, em nosso e em outros países, que poderiam sanar ou, pelo menos, mitigar o problema da violência em Londrina, que tem assustado a todos.

Espero que o senhor publique esta carta como forma de exteriorizar o protesto e as propostas deste leitor, que, como todos os londrinenses, deseja viver tranquilamente em nossa cidade.

Atenciosamente,

Cidadão londrinense

 

Percebeu como a estrutura da carta é dissertativa? No primeiro parágrafo – releia e confira – é apresentada a tese a ser defendida (a de que a situação da violência é grave, mas não irremediável); nos dois parágrafos subsequentes (o desenvolvimento), são apresentadas, obedecendo ao que se pediu no enunciado, propostas para combater a violência na cidade de Londrina; e no último parágrafo, a conclusão, propõe-se que as autoridades sigam exemplos como os citados no desenvolvimento.

O leitor (o editor do jornal) “apareceu” no texto, o que é muito positivo em se tratando de uma carta. E, como não poderia deixar de ser, foram respeitados os elementos pré-textuais (cabeçalho e vocativo) e pós-textuais (cumprimentos e assinatura).

 

* Este texto foi adaptado de outros textos que podem ser encontrados pela internet. A autoria, pois, não é integralmente nossa.

Olá!

O que você achou deste conteúdo? Conte nos comentários.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *